sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Caos na narrativa 1: Lovecraft e Melville


H. P. Lovecraft e Herman Melville foram autores que durante a fase “madura” da escrita buscaram ao seu modo a totalidade na narrativa. Por narrativa total entende-se o uso amplo de histórias, caraterísticas de narrar, além de uma poderosa roupagem a psicologia do narrador e de alguns personagens centrais. Moby Dick e Nas montanhas da loucura são exemplos de obras titânicas porém às mesmas causam distância aos leitores.
Fora da realidade, Melville e Lovecraft parecem dois alienígenas no mundo que habitam, desdenham das publicações de sua época, tem uma visão bastante nublada sobre o contato e a mistura cultural, conseguem ler poetas e suas poesias simples do século XVII e XVIII, mas escrevem com o peso da Ilíada e da Odisseia na mão.
Melville pertence a uma geração de escritores estadunidenses que marcaram história. A segunda metade do século XIX propiciou nomes como Edgard Alan Poe, Walter Wiltman, Nathaniel Hawthorne, H. D. Thoreau e o próprio Melville, deram de fato uma face moderna, experimental e filosófica a essa geração.
Se é comum observar escritores sendo enquadrados em “gerações” ou períodos observo como é difícil nortear Lovecraft. Escrevendo do período final da década de 1910 até os anos 30, Lovecraft foi mais obscuro que os monstros das suas obras. Emparelhado historicamente com ele temos Robert E. Howard – pai de Conan, o Cimério – que seguia a mesma linha de trabalhar com o horror e o fantástico. Lovecraft só foi “descoberto” pela grande massa de leitores só tardiamente, para azar dos leitores e do ego do Lovecraft.
Herman Melville provavelmente quando finalizou Moby Dick em 1851 (Brasil – Abril, 2010) em algum momento pensou e orgulhou-se da magnitude de sua obra, mas não foi o sentimento dos leitores. Densamente escrito é quase impossível perceber o “sabor” da obra em uma primeira leitura, feito em pequenos capítulos pois foi publicado em folheto de jornal, o seu narrador é tão em completo em saber que beira ao um filósofo grego, mas tem uma origem tão simples que causa curiosidade em saber qual biblioteca este frequentou antes de embarcar. Em um mesmo parágrafo o leitor vai aprender sobre o manuseamento de armas navais, a filosofia de Platão, misticismo medieval ao tratar da “baleia” branca a ser caçada ou a monotonia dos dias sem caça nos mares tropicais. Moby Dick foi na infância, o meu primeiro contato com uma obra de peso, pouco entendi na primeira leitura, mas em cada leitura anual do livro o compreendo um pouco mais.
A abertura e a conclusão do livro parecem não ser do mesmo narrador, rápido, direto e fatal, o centro da obra é lento, explicativo e subjetivado, para muitos, épico. Um dos poucos momentos de riso no livro é a referência feita a quase um culto cristão irado e desdenhoso aos tubarões que acompanhavam o navio do capitão Ahab feito pelo cozinheiro negro. Sua tentativa de escrever um romance total esbarrou no narrador, pouco ciente do trabalho de contar detalhe por detalhe o funcionamento da caça à baleia, sobre a vingança de Ahab, e os significados quase misticos escondidos a cada máxima proferida. E como há máximas nesse livro!
Por mais de 25 anos Lovecraft revisou sua obra, seu detalhismo e amadurecimento como escritor fez de seus contos e projetos de romance um trabalho constante, quando não foram destruídos por ele mesmo, o material que sobrou o consolidou como o maior escritor do gênero de horror do século XX.
Publicado em 1937, o conto A casa maldita (Brasil – LPM, 2014) porém escrito desde 1924, considero um dos melhores contos de Lovecraft, é quase certo ter sido a base para ele escrever posteriormente A cor que caiu dos espaço (Brasil – Hedra, 2011) publicado em 1927, apesar do cenário e o desfecho ser totalmente diferente, o terror e os problemas trazidos por esse mal inominável são os mesmos, a mesma senhora louca que habita o andar superior, as mortes seguidas sem explicação, a cor da pele, os cheiros, vapores e bolores etc, não trata-se de uma cópia, mas uma melhoria significativa, quase uma reescrita.

A cor que caiu dos espaço 
prova como Lovecraft é mestre em prosas médias, perdia-se em narrativas longas, muito por falta de um bom editor, onde chegamos a um dos seus últimos escritos, Nas montanhas da loucura – 1931 (Brasil – Hedra, 2010), Lovecraft reclama da edição que seu livro recebeu, acaba recusado e só vai ser publicano em 1936! O texto só não consegue ser mais enfadonho enquanto escrito que A busca onírica por kadath (Brasil – Hedra, 2012) porém grandiosos na singularidade. Explicar a ambientação física era uma arma sábia de Lovecraft para prender o leitor a sua realidade, mas é tão longa a referir-se a Antártida que o leitor ao chegar as cidades lá “perdidas” leva a uma desatenção quase certa ao bloco mais importante do livro. Sua narrativa que conseguiu costurar com muita delicadeza ficção científica / fantasia / ciência / história e até geologia perde-se na sua longa e repetitiva descrição, qualquer leitor dele já sabe disso, mas mesmo assim incomoda os seus mais ferrenhos defensores. Nas montanhas da loucura é a ápice da jovem vida de Lovecraft, mas ainda considero A cor que caiu dos espaço, O inominável (Brasil – Iluminuras, 2007) e Um sussurro nas trevas (Brasil – Hedra, 2010) os melhores escritos de Lovecraft.
Seja Melville ou Lovecraft, o mal habita a profundeza abissal dos oceanos e da alma,  a experiência de vê-lo materializado era senão uma loucura, interessante lembrar que nessas mesmas profundezas Cachalotes e lulas gigantes  lutam entre si.

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