sábado, 9 de setembro de 2017

Ficção científica e nacionalidade – 1



Apesar da enorme apreciação que o público vem dando a produções de temas ligados a Ficção científica, pouco mudou sobre a qualidade de crítica a essas produções. De forma geral a Ficção científica foi o gênero que melhor representou os últimos 60 anos de história. Se o século XIX inventou o amor romanceado, a Ficção científica re-inventou o nosso contato com o Estranho  – weird/supernatural.
Em Guerra dos Mundos (2005 – imagem acima), adaptação de A Guerra dos Mundo de de H. G. Wells,  podemos ampliar e percebe a relação – óbvia e passiva ao expectador mesmo tempo –  sobre os contornos que cada povo faz com a Ficção científica.
A Ficção científica americana é antes de tudo uma representação do modo de vida americano e o medo – horror seria a melhor palavra – para com o desconhecido. As referencias históricas são abundantes em diversas obras, podemos ler contos e livros da década de 20 onde seres de origem estranha ao nosso mundo – o mundo do homem branco e protestante – são representados com fisionomia, indumentaria e sotaque dos imigrantes, ou assistir Interstellar e não perceber as referências com a conquista do o oeste e sobre as estranhas tempestades de areia dos anos 20 e 30 nos Estados Unidos que foram um pesadelo para os fazendeiros do Sul e do Oeste.
Voltemos a Guerra dos Mundos. Apesar do primeiro momento do filme concentra-se na vida urbana que o herói do filme tem, logo o espectador é lançado para a tipica paisagem interiorana americana, a vida rural é densamente representada por um interiorano – uma espécie de redneck, que vive no norte – afetado psicologicamente pelo ataque dos trípodes e onde ele vai coloca em risco a vida do herói e da sua filha. A passagem por uma ponte acima do  rio Hudson (imagem acima), é a mais considerável menção a essa nacionalidade do que é ser americano no filme. Na história da independência americana, o rio Hudson tem especial menção. Por lá em 1776 atravessou em fuga o exército do general George Washington, para reagrupar-se e contra atacar os ingleses e mercenários que viam em seu encalço. No filme percebemos a simbologia semelhante, a partir dessa travessia vemos os Estados Unidos contra atacando os invasores seguidamente para só no fim conseguir a vitória, o filme termina exatamente em uma vitória sobre os trípodes na simbólica cidade de Boston, que em idos de 1775 e 1776 os laços entre americanos e ingleses foram definitivamente rompidos.
No livro A guerra dos mundos, publicada nos anos finais da esplendorosa “Era Vitoriana” o debate é semelhante. Não temos o mundo campesino americano, mas sim os mares costeiros da Inglaterra, onde a orgulhosa Marinha Real – a maior do mundo naquele período – luta contra os invasores marcianos, da mesma forma que não temos o vale do rio Hudson, mas o rio Tâmisa cortando Londres, que é de igual maneira atacadas pelos trípodes. Bom, mas isso é assunto para outro dia.
O apelo a defesa do mundo rural é um fetiche americano, no filme O Patriota (2000), Mel Gibson interpretando um fazendeiro sulista, fala que a guerra pela independência não se dará em cidades, mas nos campos e dentro das casas. Mas isso também pode ser ampliado, não é só as imagens românticas do campo que norteiam a Ficção científica americana. As pequenas cidades, comunidades, guetos religiosos são um pilar da narrativa americana. Quem melhor esmiuçou isso de forma visual foi a série Arquivo-X.

Arquivo-X relembrou e estereotipou uma das bases mais clássicas do mundo americano, a vida no ambiente mistico e religioso, profundo – deep -, violento e desconfiado com tudo que lhe é estranho ao modo de vida do Homos Americanos.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Caos na narrativa 1: Lovecraft e Melville


H. P. Lovecraft e Herman Melville foram autores que durante a fase “madura” da escrita buscaram ao seu modo a totalidade na narrativa. Por narrativa total entende-se o uso amplo de histórias, caraterísticas de narrar, além de uma poderosa roupagem a psicologia do narrador e de alguns personagens centrais. Moby Dick e Nas montanhas da loucura são exemplos de obras titânicas porém às mesmas causam distância aos leitores.
Fora da realidade, Melville e Lovecraft parecem dois alienígenas no mundo que habitam, desdenham das publicações de sua época, tem uma visão bastante nublada sobre o contato e a mistura cultural, conseguem ler poetas e suas poesias simples do século XVII e XVIII, mas escrevem com o peso da Ilíada e da Odisseia na mão.
Melville pertence a uma geração de escritores estadunidenses que marcaram história. A segunda metade do século XIX propiciou nomes como Edgard Alan Poe, Walter Wiltman, Nathaniel Hawthorne, H. D. Thoreau e o próprio Melville, deram de fato uma face moderna, experimental e filosófica a essa geração.
Se é comum observar escritores sendo enquadrados em “gerações” ou períodos observo como é difícil nortear Lovecraft. Escrevendo do período final da década de 1910 até os anos 30, Lovecraft foi mais obscuro que os monstros das suas obras. Emparelhado historicamente com ele temos Robert E. Howard – pai de Conan, o Cimério – que seguia a mesma linha de trabalhar com o horror e o fantástico. Lovecraft só foi “descoberto” pela grande massa de leitores só tardiamente, para azar dos leitores e do ego do Lovecraft.
Herman Melville provavelmente quando finalizou Moby Dick em 1851 (Brasil – Abril, 2010) em algum momento pensou e orgulhou-se da magnitude de sua obra, mas não foi o sentimento dos leitores. Densamente escrito é quase impossível perceber o “sabor” da obra em uma primeira leitura, feito em pequenos capítulos pois foi publicado em folheto de jornal, o seu narrador é tão em completo em saber que beira ao um filósofo grego, mas tem uma origem tão simples que causa curiosidade em saber qual biblioteca este frequentou antes de embarcar. Em um mesmo parágrafo o leitor vai aprender sobre o manuseamento de armas navais, a filosofia de Platão, misticismo medieval ao tratar da “baleia” branca a ser caçada ou a monotonia dos dias sem caça nos mares tropicais. Moby Dick foi na infância, o meu primeiro contato com uma obra de peso, pouco entendi na primeira leitura, mas em cada leitura anual do livro o compreendo um pouco mais.
A abertura e a conclusão do livro parecem não ser do mesmo narrador, rápido, direto e fatal, o centro da obra é lento, explicativo e subjetivado, para muitos, épico. Um dos poucos momentos de riso no livro é a referência feita a quase um culto cristão irado e desdenhoso aos tubarões que acompanhavam o navio do capitão Ahab feito pelo cozinheiro negro. Sua tentativa de escrever um romance total esbarrou no narrador, pouco ciente do trabalho de contar detalhe por detalhe o funcionamento da caça à baleia, sobre a vingança de Ahab, e os significados quase misticos escondidos a cada máxima proferida. E como há máximas nesse livro!
Por mais de 25 anos Lovecraft revisou sua obra, seu detalhismo e amadurecimento como escritor fez de seus contos e projetos de romance um trabalho constante, quando não foram destruídos por ele mesmo, o material que sobrou o consolidou como o maior escritor do gênero de horror do século XX.
Publicado em 1937, o conto A casa maldita (Brasil – LPM, 2014) porém escrito desde 1924, considero um dos melhores contos de Lovecraft, é quase certo ter sido a base para ele escrever posteriormente A cor que caiu dos espaço (Brasil – Hedra, 2011) publicado em 1927, apesar do cenário e o desfecho ser totalmente diferente, o terror e os problemas trazidos por esse mal inominável são os mesmos, a mesma senhora louca que habita o andar superior, as mortes seguidas sem explicação, a cor da pele, os cheiros, vapores e bolores etc, não trata-se de uma cópia, mas uma melhoria significativa, quase uma reescrita.

A cor que caiu dos espaço 
prova como Lovecraft é mestre em prosas médias, perdia-se em narrativas longas, muito por falta de um bom editor, onde chegamos a um dos seus últimos escritos, Nas montanhas da loucura – 1931 (Brasil – Hedra, 2010), Lovecraft reclama da edição que seu livro recebeu, acaba recusado e só vai ser publicano em 1936! O texto só não consegue ser mais enfadonho enquanto escrito que A busca onírica por kadath (Brasil – Hedra, 2012) porém grandiosos na singularidade. Explicar a ambientação física era uma arma sábia de Lovecraft para prender o leitor a sua realidade, mas é tão longa a referir-se a Antártida que o leitor ao chegar as cidades lá “perdidas” leva a uma desatenção quase certa ao bloco mais importante do livro. Sua narrativa que conseguiu costurar com muita delicadeza ficção científica / fantasia / ciência / história e até geologia perde-se na sua longa e repetitiva descrição, qualquer leitor dele já sabe disso, mas mesmo assim incomoda os seus mais ferrenhos defensores. Nas montanhas da loucura é a ápice da jovem vida de Lovecraft, mas ainda considero A cor que caiu dos espaço, O inominável (Brasil – Iluminuras, 2007) e Um sussurro nas trevas (Brasil – Hedra, 2010) os melhores escritos de Lovecraft.
Seja Melville ou Lovecraft, o mal habita a profundeza abissal dos oceanos e da alma,  a experiência de vê-lo materializado era senão uma loucura, interessante lembrar que nessas mesmas profundezas Cachalotes e lulas gigantes  lutam entre si.

De volta

Perdi boa parte dos pequenos textos e projetos de leitura do projeto Livros Ciclópicos que estavam hospedados no Wordpress desde 2015, dessa forma, republicarei alguns aqui, outros esquecerei e iniciarei novas metas.

Estamos em 08/09/2017, temos um longo caminho pela frente.